A vida secreta da professora #1

Antes, uma breve apresentação. Sou professora, há seis anos e um pouquinho. E graças a Deus tive o prazer de trabalhar com tudo que o meu segmento, fundamental I (da Educação Infantil ao 5º ano e o PEJA – Jovens e Adultos), permite.

Desde o início, trabalho na rede pública de ensino da minha cidade. Ou seja, trabalho com crianças “carentes”, em múltiplos sentidos, mas não pensem com isso que todas elas são carentes de cultura e de infância (tenha na sua cabeça que são crianças, pensamentos infantis, inocentes), são parâmetros diferentes e venho aprendendo com elas desde então.

Vamos começar do início, para que vocês entendam o tom de conversa que verão por aqui: sou professora, meu trabalho é lidar com a aprendizagem, o desenvolvimento social/ intelectual/ afetivo, a formação de seres HUMANOS. É muita responsabilidade, principalmente quando se é inexperiente, mas é um crescimento pessoal muito grande conviver com eles.

Bom, o meu início na rede municipal e no magistério foi muito intenso. A minha primeira turma tinha muita dificuldade de aprendizagem e algumas crianças tinham um histórico de vida que faria muitos de nós querermos nos jogar da ponte (não saia correndo, não vou contar tristezas infinitas! Calma, volta aqui, senta e vem ouvir que o material é interessante).

O primeiro caso que quero compartilhar, e é sobre isto que essa coluna tratará, é um wallflower. Vou cham-lo de Marcelo, mas este não é seu nome, ok? Aliás, nenhum dos nomes é o oficial.

Em determinado momento, bem no iniciozinho, conhecendo a turma ainda, faço a pergunta:

“Quantos irmãos você tem? ”

Marcelo conta nos dedos, perde as contas e reinicia. Explico a pergunta, imaginando que ele não me entendeu:

“Perguntei quantos irmãos, e não quantos anos…”

Ele me interrompe:

“Então, nove! Tenho nove irmãos!”, ri. Acredito que eu tenha feito alguma expressão de confusão que o levou a rir.

Eu tinha 20 anos àquela época e nunca tinha visto isso na vida. Acreditava que aquele Caco Antibes do Sai de Baixo, dizia aquelas atrocidades de forma mais absurda possível, nunca imaginei que fosse próximo da realidade, de verdade. Era apenas a primeira vez que eu ouviria essa frase (ou parecida).

Um pouco depois, em um momento de rebeldia de Marcelo, encaminho-o a direção (muito depois aprendi que resolver sozinha, em alguns casos, é a melhor opção.), e descubro algo muito triste a seu respeito: Marcelo mora com a mãe e três irmãs mais novas. Ele tem nove anos, está repetindo o terceiro ano pela segunda vez. Sua mãe é ex-usuária de drogas e uma vez tentou matá-los, mas ninguém (órgãos responsáveis) os tirava da guarda dela em nome de uma reabilitação pela qual passou. E ela diz a plenos pulmões:

“Desisti desse garoto!”

Sim, um menino de nove anos. Sofrido (não saia correndo, calma!)!

E essa também era apenas a primeira vez que eu ouviria isso.

Durante o resto do meu primeiro ano, com a minha primeira turma (vocês ouvirão falar muito dela), descobri que Marcelo era um artista nato. Ele imitava a todos com perfeição. Nem sempre com a intenção de ofender, ele era um comediante muito engraçado, que ria e fazia rir com excelência. Imitava Michael Jackson, porque tinha um DVD pirata de “This is It” (filme que fez muito sucesso na época da morte do astro), e até tentava cantar num inglês embromeichon. Mas a arte que destacava Marcelo era o desenho, todos perfeitos.

No meu mural de avisos, o Mickey meio tortinho, mas que me trazia flores maravilhosas, ficou até o final do ano, quando ele foi aprovado e no ano seguinte amou outra professora como se fosse a mãe que ele nunca teve.

Marcelo foi o primeiro a me ensinar e vou tentar dividir com vocês um pouco disso.

Anúncios

Moscas de Luz

Esses animaizinhos têm uma hora de vida. É o que aparenta para quem os vê inoportunamente dentro de suas casas debatendo-se contra as lâmpadas, telas de televisão, de celulares… É uma hora de desespero para os seres humanos que os assistem. É um transtorno passageiro, índice de calor.

Para o animal que está de lá observando-nos, a relatividade temporal é outra. Aquela uma hora são os anos de juventude a flor das asas, embebidas de calor e luz, debatendo-se loucamente contra as lâmpadas, telas de televisão e celulares. É a hora vivida em anos de felicidade e paixão. Viver toda a vida, ou a parte alada dela, embriagando-se de luz.

Mas para os humanos é só algo inoportuno, como tudo o mais que o índice acarreta. Uma hora de escuridão, de janelas fechadas, de televisão desligada, de reclamação da vida, de percepção de mundo e desespero. Afinal de contas está tudo fechado, quente, escuro… é uma hora de vida em anos de escuridão.

Preferia uma hora de luz.

E logo passa, ligam-se as TVs, os celulares e abrem-se as janelas. Volta-se a reclamar de tudo, inclusive das “moscas de luz”.

Amor Platônico

Ela conhecia cada detalhe desconhecendo-o. Um amor platônico.

Observava-o todos os dias á distância, no precário café de higiene duvidosa que frequentava. Ele adentrava sem pretensão o local, diariamente, assim como ela. Parecia de bem, sério. E às vezes agradecia ao atendente, às vezes não.

Esse pequeno fato, ela atribuía às rugas na testa. Rugas que testemunhavam a favor ou contra sua cordialidade. Se amenas, suaves, o agradecimento seguido do sorriso singelo viria. Se profundas, intolerantes, quase levavam ao estalar da língua pela demora no atendimento. Demora constante, idêntica a dos dias em que quase sorria. Era, porém, o momento em que o sorriso dela se alargava. Um sorriso interno. Não deixava transparecer. A beleza nas rugas que sulcavam na testa dele, naquele espaço entre as sobrancelhas, embriagava-a. Passava o dia adorando-as.

Também havia o cabelo. Fato ao qual ela ligava o trabalho. Dias bons de trabalho eram retratados pelos cachos organizados. Logo, sorriso singelo e cachos organizados eram uma ligação óbvia e coerente. Os dias em que os cachos vinham rebeldes, eriçados, ela podia ter certeza de que o dia fora difícil para ele. O estalar de língua e os cachos embaraçados faziam dele uma pessoa comum, quase atingível.

Nesses dias, os dias dos cachos embaraçados e das rugas, ela tinha que se segurar o dobro para não falar com ele. Não puxar o assunto. O diálogo seria breve, mas ouvir a voz que viria com aquela expressão era tentador.

Sabia que talvez a voz do dia do sorriso gentil não coincidisse com as expectativas. Os ombros relaxados, a respiração tranquila e a atenção ao jornal local que passava na TV do café demonstravam-no simples. Apenas para ser observado e adorado à distância.

Queria ouvir a voz do dia embaralhado.

Os dias embaralhados, no entanto – dias onde ele transpirava hostilidade pelas rugas, a mandíbula cerrada, os cabelos ensandecidos, os ombros tensos e alinhados, a atenção ao copo de café como se fosse curá-lo de algum mal-, eram dias que a faziam perder o fôlego e ganhar coragem.

A combinação rugas, sapatos que não combinavam com o cinto, camisa amarrotada e cabelos com vida própria, bem como aquelas respirações profundas de quem tenta relaxar e não consegue, também eram atraentes. Um dia em que ele dormira mal. Talvez tivesse tido pesadelos, talvez estivesse de ressaca. Tivesse pensando onde a vida o levara, assim como ela fazia. Era um dia em que ele deliberadamente agia como um grosseiro. Recusava-se a olhar em volta. Recusava-se a deixar o mundo participar do redor dele.

Em algumas vezes ela presenciou combinações diferentes: cabelos rebeldes com sorriso dócil, respiração profunda e olhar perdido. A essa combinação deu o nome de cansaço. Quis mais que nos dias embaralhados, aproximar-se. Conversar com ele, saber de suas angústias, ouvir a voz tranqüila e profunda que viria com a expressão de lábios retesados.

A pior combinação foi o dia do sorriso largo: cabelos arrumados, ombros imponentes, olhos brilhando. Nem por um segundo teve dúvidas, nesse dia o seu cabelo refletia outro fato que não o trabalho. Sentiu-se enciumada, traída. A mão, bagunçando o cabelo, descontraída, estava traindo-a. Ele que ainda sorria, bagunçava os cabelos não por um dia ruim no trabalho, não por motivo algum senão outra mulher. Pediu uma média esse dia, mas já parecia elétrico demais.

Sentiu-se vingada, num dia com cachos arruinados, olheiras profundas, rugas na testa e unhas grandes. O café esfriando, os goles miúdos que ele dava na média não dando conta na batalha contra o ventilador de teto. O sofrimento descrito nas linhas de expressão nos cantos da boca. O queixo trêmulo e os olhos aquosos, mas sem brilho. Quis parar ao seu lado e acariciar as suas costas, seus ombros tão caídos davam-lhe a aparência corcunda.

Preocupou-se, não gostava de vê-lo assim. Sentia falta da desatenção de olhos perdidos na TV, gostava do estalar de língua mal-educado, sentira falta até mesmo dos olhos brilhando e das roupas impecáveis em dedicação a outra.

Queria que ele voltasse ao normal: aquela simplicidade com que o decifrava, pois não poderia imaginar o que afligia aquele desconhecido. Suas suposições eram tantas que preferia não pensar nelas. Queria a obviedade das combinações pré-determinadas. Cachos e rugas, sorrisos e grosserias. Descaso e felicidade alheia.

Queria amá-lo como o amava, do jeito que o amava. Queria que ele ficasse bem.

Num movimento inédito, ele cruzou as duas mãos atrás da cabeça, bagunçando os cachos e abaixando a cabeça sobre o balcão. A expressão inacessível a visão dela. Não tanto quanto a marca em seu dedo. Uma linha reta, marcada pelo sol. Marcada pela falta. Marcada pela perda.

A marca da aliança recém tirada não a deixou contente. Era a garantia que ela tinha de que esse amor iria durar para sempre. Teria ele, sem precisar tê-lo.

Queria o conforto de observá-lo e precisá-lo sem doar-se.

Ela estalou o beiço e bagunçou os cabelos. Sentia as rugas entre as sobrancelhas. Não queria mais sentar-se ali a disposição dos olhos de ninguém. Não queria permitir que o mundo participasse dela agora. Pagou a média fria, que bebera a goles miúdos. Levantou-se e arrumou a camisa mal passada que vestia. Sentiu os lábios retesados e os ombros tensos.

Saiu pela porta sabendo que não voltaria.

Good Woman

Conheceram-se no inverno, do modo mais simplório possível, que mal permitia uma história sobre o fato. Ela era ruiva desnatural àquela época e ele tinha uma barba grande e pesava  vinte quilos a mais.

Desde o primeiro dia ela sabia que não servia pra ele. Que não prestava  o suficiente pra merecê-lo. Ele era gentil. Inteligente. Ela não.

Nunca ria dela quando falava errado ou quando era mesquinha com suas poucas coisas. Sua paciência era infinita e ela o amava por isso, mesmo que lhe fizesse perder a paciência com sua pieguice e romantismo.

Estava cansada de dizer que detestava flores, não dissera? Ele assentia e procurava um vaso mesmo assim. Não são nada, dizia ligeiramente magoado e nunca desistia. Arrependia-se toda vez quando percebia tê-lo magoado. Não podia evitar.

Escondia o choro como se fosse derrota e revirava os olhos para o dele, mesmo sabendo que na recíproca ele a teria abraçado. Desculpa, dizia de longe, não o abraçando ainda assim.

Para quê tudo isso? Todo esse preparo? Odeio planos!, esquivava-se dos planos comuns que ele planejava com todo o cuidado.

E ela o traiu, sem saber o porquê. Mas no fundo sabia. Amava-o e queria apenas testar os limites do amor. Não prestava, não o tinha avisado antes?

No primeiro tapa ela soube, que ele prestava mais que ela. O corpo doía e ela, dolorida por fora, entendeu o que era a dor que o afligia por dentro.

Queria que ele fosse feliz, sentia muito…  Não, ele sentia muito, não deveria ter perdido a cabeça. Meu amor. Não quero ser e ver você se transformar em algo que não é.

Desculpa, disse no abraço não retribuído por ela.

Separaram-se no verão e ela ainda o ama e ele ainda é um bom homem.

Never Ever Land

Peter estava em Neverland, de novo.

Ia constantemente lá agora. Passava mais tempo lá que na realidade. Mais tempo lá que em qualquer outro lugar.

− Hook, quanto você vendeu pra ele dessa vez? – Ele passou as mãos nos cabelos cacheados, que já voltavam a crescer e alcançavam as orelhas, afastando-os dos olhos. Sorriu o sorriso de dentes amarelados pelo cigarro e apenas me encarou.

− Querida, − o R forçado que ele fazia me irritava, mas eu nunca poderia dizer isso a ele. – Peter quer ser imortal…  − riu, o riso dos loucos e embriagados.

***

Ele transpira liberdade. O sorriso é malandro, o rosto é lindo e infantil. Tem aquela covinha única na bochecha esquerda. Numa eterna paixão sobre si mesmo. E eu o invejo. Ele é tudo o que eu gostaria de ser. Todo o meu potencial resguardado.

− O que você faz aqui, Wendy? – Ele sabe, Peter sabe que não vou ficar. Ele me aproveita. Mas a pergunta não é para si. Não quer ele saber, quer que eu saiba. Que eu tome a decisão.

− Vim ver as sereias, − brinco, mas não consigo rir, ele sim. Ri de mim e não para mim. – É sério!

− Eu acredito.

Odeio a sua condescendência. Odeio que ele me conheça, que saiba que eu sou fraca, que não vou ficar. Que não vim ver sereias, nem piratas, que vim tentar resgatá-lo, quando quem precisa dele sou eu. Nunca o oposto.

Preciso de Peter, pois não quero crescer. E ele é irrecuperável, porque não existe erro aqui. Não nele. Apenas em mim.

− Quando você vai voltar, Peter? – Fecha o sorriso e me acompanha na seriedade por um instante, antes de rir.

− De onde foi que sai? – ele flutua em círculos, ampliando-os conforme seu corpo desafia a gravidade lógica. – Se você voltar, nunca mais nos veremos, espero que saiba. – o sorriso nunca deixa os seus lábios, mas sei que ele tem medo.

Tem medo de se perder de mim e deixar de existir. Nunca existirá Peter sem Wendy. Ninguém nunca saberá. Eu preciso voltar, para que eu exista e, por consequência, ele também.

− Se eu ficar, ninguém saberá.

Ele entrelaça os dedos atrás da cabeça e sorri, o riso dos loucos e dos embriagados.

− Sempre vou me lembrar de você, prometo. – Decido e tento acompanhá-lo no ar, mas Peter não quer ser alcançado, e nem seria.

− É tão curta essa promessa, tão vã, que chega a ser vil. A sua vontade de ir é a mesma de esquecer. Sua certeza de não ficar, de querer crescer, é a entrega ao esquecimento. O seu novo mundo vai tirar de você a minha Wendy. Você nunca mais será a Wendy do Peter, nunca mais será quem é agora.

− Ninguém nunca mais é o que foi.

Ele sorriu, como um desafio e eu nunca mais o vi.

***

Peter morreu aos vinte e sete. Os lábios entreabertos como um sorriso, a covinha marcada. E na lembrança ele ainda é infantil, lindo e livre.

Tem dias que a vida me consome e nem me lembro dele. E, só às vezes, olho no espelho e lembro da Wendy.

Better Man

[Sábado a noite, pela milionésima vez essa música (homônima ao conto, do Pearl Jam) falou comigo. Ruminei por meses(anos), até que agora eis o vômito.]

BETTER MAN

Waiting, watching the clock

São quatro da manhã.

O banheiro é pequeno, mal é um banheiro. Ela olha para o espelho:

− Não… te … amo … mais… – a garganta dói. Os olhos ardem.

Apaga a luz do cômodo úmido e fecha a porta com o trinco, não tem maçaneta. Caminha dez passos seus e atravessa dois dos quatro cômodos da pequena casa. Deita na cama, ao lado dele, que dorme pesado o sono dos justos.

Amanhã. Já está tarde demais pra não conseguir esperar amanhecer.

Não fecha os olhos, apenas lembra:

[…]

− Vamos nos casar e vamos ser felizes! – A convicção dele a compra, embora o embrulho no estômago não tenha absolutamente nada a ver com as tais borboletas. Ela tem medo, sempre teve. Casamentos acabam, ele não é o certo, ela não está certa disso.

− Vamos. – o sorriso aparece e os olhos brilham, mas o estômago está embrulhado e ela quer vomitar. – eu te amo.

− E se tivermos um filho, ele pode se chamar…

− Ninguém falou nada sobre filhos! – ela ri, não sabe nada da vida, mas tem a certeza de que não é assim que se começa.

[…]

Ele rola e joga um braço em cima dela. Aproxima o corpo do dele e gela por dentro.

Amanhã.

[…]

Ele ri enquanto ela canta. Não porque acha bonito ou porque ela é feliz quando o faz, mas sim, porque ela fica estranha quando o faz. Desafina, grita demais, parece ridícula.

− Não, − diz entre risos debochados – sua voz é péssima! – ainda o riso.

O riso a irrita, mas ela, como sempre não diz, apenas emburra a cara, na esperança que o olhar o faça entender. Nunca faz.

[…]

Levanta da cama, acende um cigarro perto da janela. Ele parou de fumar, agora não pode mais fumar dentro da própria casa. Ela é fraca, deveria parar, ele parou, ela tinha que parar.

[…]

− Você é boazinha demais … deixa eles te tratarem assim. – “Eles” são a família dela, e ela é mesmo boazinha demais, pensa consigo.

Quando menos espera está gritando dentro de casa, dizendo absurdos. Chora. Sabe que é manipulada, mas é jovem, muito jovem.

[…]

Lava as mãos para tirar o cheiro do cigarro. Sua mãe sabe que ela fuma desde os treze, mas ele não pode mais saber.

Amanhã, daqui a alguns instantes apenas.

[…]

Ele a olha com os olhos marejados:

− Por favor. – implora.

Olhos inchados, mãos doloridas, corpo febril. É jovem ainda, não precisa dele. Grita isso.

− Eu te amo! – ele grita.

A cabeça dói, quer paz, quer que ele vá embora. Dói, ela diz. Ele a abraça. Soluça e aceita. Os olhos dele secam, os dela molham-lhe o rosto, a camisa, os lençóis.

[…]

É a última hora antes de o despertador tocar. Ele vai acordar com o péssimo humor de sempre.

Amanhã…

O despertador toca; agora é amanhã.

Fecha os olhos, finge dormir, (ch)ora por dentro: amanhã, amanhã…

Ele a olha dormir enquanto ele acorda. Estala a língua no céu da boca.

 

Can’t find a better man

Alive: the curse, the meaning

Em homenagem a música Alive, Ed Vedder

Em janeiro desse ano encontrei esse vídeo onde o Ed conta a história dele/de Alive. Fiquei chocada, por ele ter se aberto dessa forma, por compreender o sentido de uma música para o autor dela, por acreditar que o público mudou a opinião dele e, por isso, o ajudou.

Desde então isso vinha me perturbando (costumo dizer que fico ruminando as coisas, pra vomitá-las aqui e digerir muito depois), eu tinha que escrever isso.

Talvez tenha ficado horrível, mas sejam legais comigo.

Segue o vídeo: alive (assistam antes)

______________________________________________________________________

Alive, the curse

Dedilhar até fazer sentido. Emitir o som até fazer sentido. Viver até fazer sentido.

− Filho! – ela gritou, como sempre fazia, da sala, esperando manter a conversa a distância, como sempre fazia. Mantinha mais a distância do que a conversa.

Ignorei, talvez ela parasse de falar, como sempre fazia.

Passos da sala até a porta do meu quarto. Nem ergui os olhos dedilhando ainda.

−Filho, passou na televisão agora um programa… – distrai a minha mente do que ela dizia, aproximei o ouvido das cordas, tocando acordes mais sonoros. Ela não desistiu, aumentando o volume agudo de sua voz. –(…) Eu tenho que te contar isso então, porque vai me fazer bem desabafar , depois você diz o que pensa é assim que funciona. – Comecei a solfejar algo sobre a superestimação da família. – (…) ele não é o seu verdadeiro pai. –meus dedos falharam quando ouvi isso.

Ela parou. Eu parei. Não a encarava, apenas silenciei, ela prosseguiu.

− Queria ter te contado isso antes… O seu pai verdadeiro morreu há alguns anos.  – dito isso, tragou o cigarro forte. Fechei os olhos, podia imaginá-la com as unhas vermelhas e o filtro do cigarro sujo por inteiro de batom vermelho.

− Sinto muito você não tê-lo conhecido, acho que você gostaria dele.  Estou tão feliz que estejamos conversando… – ela sorriu.

Respirei fundo.

Ele está morto, eu não. Eu continuo vivo.

− Eu estou pronta, é a sua vez… – a voz animada não condizia em nada com as palavras que saiam da boca. Tentei encaixar isso de modo coerente. Os olhos fechados, o violão pesando no joelho, respiração acelerada.

Não consegui nenhuma definição de imagem, quando ergui os olhos abertos. Só conseguia encarar os olhos. O olhar.

Eu continuo vivo.

− Tem alguma coisa errada? – finalmente pareceu que o tom certo era dado ao contexto e palavras ditas.

Claro que havia algo errado, muito errado. Eu continuava vivo!

− Você continua vivo, filho. – ela caminhou dentro do meu quarto, sem permissão pra fazê-lo. E pela primeira vez na nossa vida em conjunto, pareceu que estávamos em sintonia e concordância, mesmo assim, divergindo.

Eu continuava vivo e merecia estar? Merecia estar vivo e ter de passar por tudo isso? Merecia viver assim, aqui, com essas companhias?

Estar vivo era o meu castigo, a minha maldição.

É isso? É essa a pergunta? Quem sabe? A quem eu pergunto?

Eu continuo vivo… até fazer sentido.

Alive, the meaning

Hoje essa vai fechar o show. Todos pensam que é porque é o maior single que temos, mas é só porque não suporto, não suporto reviver em lembranças borradas aqueles momentos e porque toda vez que canto imagino a figura dela de alguma forma distorcida.

Eu continuava vivo para cantar, para não ter perdoado, para não entender o porquê de estar.

O primeiro som, a multidão grita. Seguro o microfone, estava cansado de tudo isso. Já no primeiro verso fecho os olhos e estou novamente no meu quarto, aos dezessete, tocando o meu violão enquanto ela assistia a um programa  do canal de futilidades. Lembro de como ela decide se libertar disso, de como faz parecer que se importa com o segredo. Ela banaliza a questão, mais uma vez.

“I’m still alive!” Eu digo.

“I’m still alive!” Eles dizem.

Eu continuava vivo, eles estavam vivos. Eu lamentava, eles comemoravam. Milhares de corpos, de vozes, de respostas.

“É essa a pergunta? E se for, quem responde?”

“I’m still A-LI-VE!”

Eles celebravam, modificavam o sentido, quebravam a maldição.

Cantar até fazer sentido, viver porque faz sentido.